ARTIGO

Tecnologia: da metáfora de grade à de matriz

Heloisa Padilha e Laura Coutinho

Dezembro de 2006

A tecnologia pode ser um salvo-conduto para a escola adentrar outros universos cujas leis não se regem pela metáfora de grade, que inspirou a grade curricular e a grade horária.

O modelo escolar que ainda utilizamos foi desenhado por Comenius (1592-1670), um notável inovador de sua época. São de sua lavra os referenciais mais importantes de organização da vida escolar: agrupamento das crianças por idade, currículo por matérias, programas anuais seqüenciais organizados linearmente do mais simples ao mais complexo (idéia que ganhou mais força ainda com Descartes e seu “Discurso do Método”, em 1637), metodologia igual para todos e adoção de livros didáticos como única fonte de referência para os estudos. No século XVII, essas idéias foram revolucionárias e causaram extraordinário avanço ao pensamento educacional. Quatro séculos depois, seu modelo encontra-se de tal forma enraizado na sociedade que parece sagrado e, por isso, permanece quase intacto. O livro didático, por exemplo, é uma tecnologia fantástica que, em seu nascimento, gerou forte reação entre os professores: “Se os alunos têm acesso ao mesmo livro que nós, para que servimos?”. Mas, apesar da resistência inicial, ganhou enorme prestígio e hoje move mercados milionários.

Contudo, do lado de fora da escola, durante os quatro séculos que já se passaram desde as iniciativas visionárias de Comenius, mudaram os saberes, os valores, os empregos, a economia, a família, as linguagens, as tecnologias e os próprios sujeitos que freqüentam o sistema escolar. Só para ficar no exemplo de defasagem relativo aos conhecimentos, observa-se que dentre os 25.000 a 30.000 campos do conhecimento existentes na atualidade, só se trabalham, na escola, com uns 10-12. Por seu turno, o fantástico desenvolvimento das Tecnologias da Informação e da Comunicação (TICs) redesenhou os referenciais de tempo, através da introdução das dimensões síncrona e assíncrona, e de espaço, com a quebra das barreiras entre nações e culturas.

O desenho rizomático das TICs, quando tenta entrar na escola, se choca com o desenho de grade em que se pauta toda a gramática da escola: grade curricular, grade de horários, plano de organização geográfica dos alunos em sala – através de fileiras e colunas que conformam, novamente, o desenho de grade. Se a sobreposição do rizoma (raízes ou caules emaranhados sem um centro gerador, sem hierarquia de importância) sobre a grade é um casamento impossível, como poderiam as TICs contribuir para alterações da estrutura escolar?

Na organização do trabalho com as TICs se encontra a saída, ou melhor, uma entrada: uma porta de entrada de um novo modelo no cotidiano escolar. O uso da internet, por exemplo, introduz os alunos num mundo de cooperação, que se opõe ao de competição. É fantástica a quantidade de bons materiais inteiramente gratuitos que circulam na web, a começar pela Wikipedia, uma enciclopédia virtual cujos autores são voluntários de todas as partes do mundo. Nela inspirada, a prática de produção de textos – informativos ou narrativos – em colaboração é uma possibilidade que pode e deve ser bastante explorada.

E, para consolidar tal experiência de trabalho cooperativo, nada melhor do que planejar a própria configuração dos ambientes de modo a favorecer tais interações, a exemplo do que fez o Colégio de São Bento. A organização grupal dos alunos no laboratório, em oposição ao desenho de grade das carteiras da sala de aula, por si só, já permite novos tipos de relações sócio-cognitivas entre os alunos.

Do ponto de vista conceitual, o trabalho com informática pode representar, para os professores, uma oportunidade de se articularem fora da grade curricular. Se o desafio é o de respeitar a conformação disciplinar do desenho curricular da escola e, ao mesmo tempo, introduzir os benefícios da interdisciplinaridade, que é marca indelével das TICs, trabalhos de pesquisa poderiam ser organizados a partir de uma matriz de competências transversais. O primeiro passo seria o de levantar, junto aos professores, que competências de pesquisa gostariam que seus alunos possuíssem. Dada uma lista de tais competências, os professores, reunidos por série, poderiam definir quais delas seriam apadrinhadas pelos docentes de cada série, entendendo-se por “apadrinhar” a responsabilidade de oferecer oportunidades específicas para os alunos desenvolvê-las e garantir que as aprendam. Depois de assinalado o que se será trabalhado em cada série, o que se obtém é o que se denomina “matriz de competências” à qual os professores poderão se referendar quando elaborarem as atividades de pesquisa que os alunos desenvolverão no laboratório de informática.

Tal desenho, como se pode depreender, provoca substancial alteração nos referenciais de tempo e de espaço escolares. Do ponto de vista espacial, professores e alunos não somente saem dos cantões disciplinares e se encontram em praças interdisciplinares, como também se rompem os muros dos ambientes inter e extra-escolares. E, do ponto de vista temporal, significa um avanço sobre os limites inflexíveis da grade horária, já que os alunos podem trabalhar de modo síncrono e assíncrono.

Enfim, espaço físico propício ao trabalho colaborativo entre os alunos, professores e alunos se ajudando mutuamente, professores trabalhando com diferentes saberes, alunos utilizando outros tempos e espaços, substituição da grade pela idéia de matriz: eis alguns dos benefícios que um bom trabalho com utilização de tecnologias pode angariar para a escola e servir de trampolim seguro para as necessárias mudanças estruturais que precisarão acontecer na gramática escolar.

Publicado no jornal Folha Dirigida em 21 de dezembro de 2006