Manoel de Barros
Uso a palavra
para compor meus silêncios.
Não gosto das palavras fatigadas de informar.
Dou mais respeito às que vivem de barriga no chão
tipo água pedra sapo.
Entendo bem o sotaque das águas.
Dou respeito às coisas desimportantes
e aos seres desimportantes.
Prezo insetos mais que aviões.
Prezo a velocidade
das tartarugas mais que a dos mísseis.
Tenho em mim esse atraso de nascença.
Eu fui aparelhado
para gostar de passarinhos.
Tenho abundância de ser feliz por isso.
Meu quintal é maior do que o mundo.
Sou um apanhador de desperdícios:
Amo os restos
como as boas moscas.
Queria que minha voz tivesse um formato de canto.
Porque não sou da informática:
eu sou da invencionática.
Só uso a palavra para compor meus silêncios.
Heloisa Padilha
Uso a palavra
para compor novos cantos.
Não gosto das palavras fatigadas de reclamar de aluno.
Dou mais respeito às de auto-angústia
tipo ainda-não-sei, ainda-não-consigo.
Entendo bem o sotaque dos gauches.
Dou respeito aos saberes desimportantes
e aos alunos desimportantes.
Prezo erros mais que acertos; perguntas mais que respostas.
Prezo a velocidade
das descobertas mais que a das receitas.
Tenho em mim, de nascença, uma impaciência com grades.
Eu fui aparelhada
para gostar de tropeços.
Tenho abundância de ser feliz por isso.
Meu horizonte tem muitas camadas.
Sou uma apanhadora dos desperdícios da escola:
Amo os que caem no caminho, as hipóteses desprezadas, os avessos,
como Quixote.
Queria que o meu canto fosse de sereia.
Não sou da problemática:
eu sou da solucionática
porque aluno não é problema.
Só uso a palavra para compor novos cantos.
© Heloisa Padilha 2005
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