Leme - Laboratório de Estudos sobre Mudanças na Escola

Revista Percursos

Editorial

Por que o LEME é necessário na sociedade de hoje?

António Nóvoa – renomado estudioso da formação de professores – alerta para um enorme vazio na fase de transição entre o final da formação acadêmica e o início da profissão docente. A inserção do professor na escola precisa de muito apoio não só por causa do enorme stress que os primeiros tempos lhe reservam, como também porque é nesse início, diz Nóvoa, que o profissional determina que tipo de professor ele será.

Componente inevitável do stress inicial, por exemplo, é fazer-se respeitado – não somente pelos alunos, mas também por toda a comunidade escolar. É preciso aprender a lidar com os alunos difíceis, sem abrir mão da aprendizagem. O professor tampouco pode abrir mão do conhecimento e logo descobre que transmiti-lo da maneira como ele próprio aprendeu não funcionará com seus alunos, por causa da velocidade com que se abre distância entre os referentes culturais das respectivas faixas etárias – do professor e do aluno. Guiomar Namo de Mello faz coro com Nóvoa ao advertir que o professor precisará transformar esse conhecimento em ensino e não simplesmente fazer transposições automáticas.
Essas aprendizagens precisam acontecer no próprio locus da escola através de práticas de reflexão, de experiências partilhadas e de análise de situações-problema, para citar algumas.

O LEME – Laboratório de Estudos sobre Mudanças na Escola – procura auxiliar a escola e o professor a pensar e a trabalhar dessa maneira: a um tempo reflexiva e cooperativa.

Significado do LEME

A escolha do nome “leme” abriga inúmeros significados e referências. Em primeiro lugar, homenageia Rubem Alves, que define o termo de maneira muito, muito bonita e que nos encantou tanto que resolvemos adotar seu conceito:

Há uma regra que explica o mistério de um barco que navega numa direção contrária à do vento. Se o barco estivesse à mercê do vento ele só navegaria na direção em que o vento sopra, situação essa que tornaria a navegação impossível. Quem se aventuraria a navegar num barco que só navega na direção do vento e não na direção que se deseja? Mas os navegadores descobriram que, com o auxílio de uma outra força, de direção distinta da direção do vento, é possível fazer com que o barco navegue na direção que se deseja. E é essa a função do leme: o leme, pela resistência da água, cria uma outra força que, colocada no ângulo adequado, produz a direção de navegação desejada.

Por outro lado, ficou decidido desde logo que precisávamos de um termo que denotasse o caráter investigativo-experimental da nossa proposta. A palavra “laboratório” exprimiria bem esse propósito. Com sua linguagem poética, Ferreira Gullar consegue dizer isso bem melhor do que nós:

Caminhos não há
Mas os pés na grama os inventarão

Uma outra faceta da escolha do termo “laboratório” para nomear o nosso empreendimento é a homenagem que fazemos a dois autores da atualidade que muito têm contribuído para o pensamento educacional: Philippe Perrenoud e Mônica Gather Thurler, ele como pesquisador, ela como coordenadora do LIFE – Laboratoire Innovation Formation Education (Laboratório Inovação Formação Educação), da Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade de Genebra cujo endereço eletrônico é http://www.unige.ch/fapse/SSE/groups/life

Finalmente, resta assinalar que o LEME está voltado para a escola: é o espaço de reflexões sobre a escola por profissionais que nela trabalham, ou seja, é o olhar para a escola vindo de dentro dela própria, a partir de instrumentos e metodologia que são adequados à sua dinâmica e suas possibilidades. Voltando a referir-nos a Nóvoa, é preciso que a escola se escreva, se quiser ganhar credibilidade social. Está aí a justificativa de uma revista como a )per)cursos.

Histórico do LEME

O LEME encontra forte inspiração no trabalho de Ana Maria Machado.

Para começar, seu livro Texturas: sobre leituras e escritos abriu a porta para um caminho que há muito buscava no meu caminhar pedagógico: como fazer acontecer a interdisciplinaridade na prática escolar? Havia estudado o assunto exaustivamente pelo ângulo intelectual. Mas não era suficiente. A compreensão abstrata da intercomunicabilidade dos saberes de nada adiantava para vislumbrar o real diálogo entre elas dentro da escola.

Quando Ana Maria interligou os universos da costura e do texto, na aparência tão distantes entre si, fez-se a mágica: compreendi que a pura cognição não bastara porque não havia sido banhada pelos vapores e odores daquilo que só as artes sabem fazer conosco: emocionar.

E foi daí que nasceu o LEME: da busca por novas metáforas e novas imagens e para trazer as artes e as emoções para dentro da sala de aula. As imagens de grade, feudo, linha e ciclo que impregnam todas as práticas escolares aprisionam e isolam alunos, professores e saberes. Por isso, é que os desenhos mais modernos de inter, multi e transdisciplinaridade não conseguem encontrar lugar na escola. O LEME tem essa função: desbravar os mares e descobrir novas imagens.
No LEME, não oferecemos cursos, mas percursos. Cada partida do cais de cada barco-turma do LEME se faz a partir de uma carta de navegação, que substitui o velho planejamento, tantas vezes mais importante para o professor do que os alunos.

As aprendizagens do percurso vão sendo registradas no livro de bordo de cada um. O rumo do percurso é regulado continuamente pelas negociações com as forças do vento e do mar, que simbolizam nossos não-saberes, fragilidades, receios mas, também, nossas expectativas e necessidades.

A primeira turma do LEME, que navegou ao longo do primeiro semestre de 2004, chamou-se Classos em homenagem a Ana Maria Machado e sua nau classos que está estampada na capa do livro Como e por que ler os clássicos universais desde cedo.

O tema estudado foi o dever de casa. Vimos que boa parte dos deveres de casa está povoada por “exercícios” e que, na maioria dos casos, tem um caráter mecanizante. Repete-se à exaustão para “fixar o conhecimento”, dizem os professores. E fomos navegar por outros mares para ver como outros saberes – a música, a poesia, o cinema – tratam a repetição e os exercícios. E descobrimos que podem ser, diferentemente da escola, muito criadores.

A segunda turma – Caravela – navegou pelas ondas dos textos escolares. Perguntas importantes desassossegaram os alunos e lá foram eles, dançando e navegando à cata de bússolas em que pudessem confiar. Afinal, como não há praticamente nenhum conhecimento que passe ao largo da linguagem escrita, parece ser óbvio que todos nós, educadores, precisaríamos ser especialistas em ensinar nossos alunos a decifrar os mais variados tipos de texto. Por isso, refletimos bastante a respeito dos tipos de texto escolares que oferecemos ao aluno e perguntamo-nos se eles o aproximam ou o afastam do conhecimento. Experimentamos misturar o estilo de escrita dos textos informativos com certos recursos dos textos literários e verificamos que o envolvimento do aluno com o conhecimento ganhou muito em qualidade. Questionamos também as perguntas que se fazem sobre os textos escolares das diferentes matérias: elas ajudam ou atrapalham o aluno a compreender e apreciar o texto e a pensar sobre ele?

Vários dos questionamentos que surgiram ao longo das navegações do Classos e do Caravela encontram-se aqui nessa Revista.