Depoimento de um navegante
Inez Veiga
Classos foi o primeiro barco do Leme a singrar os mares. Um barco para grandes navegações.
Zarpamos no dia 08 de março de 2004, de um cais-sala do Colégio Andrews, com 17 tripulantes. Na realidade, todos capitães, todos marinheiros.
A missão era arriscada. Iríamos navegar por águas desconhecidas: um não-curso, um “per-curso” pelo Dever de Casa. No roteiro constava que deveríamos nos deter: no significado dele nos dias de hoje, nas questões conceituais e operacionais que suscitam, quais os tipos adequados aos objetivos da escola, que relações estão presentes entre o estudo e o dever de casa e qual o papel da família. Os outros itens do roteiro iriam sendo levantados ao longo da viagem, provocados pelos ventos e calmarias que nossas manobras nos trouxessem.
Os espaços que poderíamos utilizar no “per-curso” seriam variados. Deveríamos velejar relacionalmente por nossos espaços internos e externos; individuais e grupais (pessoal, profissional e institucional); físico e imaginário, num tempo articulado entre presente, passado e futuro.
Nossos (nove) encontros seriam quinzenais. Numa grande mesa, no início de cada encontro, teríamos uma pasta para registrar o que achássemos bom ou mau e onde poderíamos oferecer ou pedir ajuda - o que nos possibilitaria uma avaliação contínua. Numa outra pasta de Dicas, poderíamos deixar nossas sugestões.
Também teríamos um diário de bordo grupal e outro pessoal para ir registrando nossas descobertas, perguntas, impasses, medos, desvios, retomadas de rotas... Seria a nossa memória para, no final da viagem, ajudar-nos a escrever o fruto da nossa navegação.
Cada encontro teria dois tempos: no primeiro, poderíamos ter percursos diferenciados sob a forma de grupo de estudo, pesquisa em ação ou atendimentos individuais; no segundo, navegaríamos em conjunto, no grupo maior.
E assim seguiu o Classos, movido a partilhas, escritas, ausências, calmarias, ventos confusos, algumas pequenas tempestades, que nos obrigaram a parar mais vezes do que prevíamos, e ter que rever nossos mapas de navegação pessoais e grupais mais de uma vez.
Lemos, escrevemos, escutamos músicas, cantamos, aprendemos a velejar com nosso corpo.
Parte do que vivemos e aprendemos está registrado aqui. A outra, está inscrita em cada um de nós que participou dessa experiência, guardada, talvez, na memória do nosso “esquecimento”.