Leme - Laboratório de Estudos sobre Mudanças na Escola

Revista Percursos

Reflexões sobre o dever de casa

Heloisa Padilha

É impressionante que o dever de casa – uma prática diária de todos os professores de todos os níveis escolares – mereça tão pouca atenção na formação docente e nas pesquisas acadêmicas. Por isso, não se espante ao tropeçar tantas vezes aqui, na )per)cursos, com referências a uma mesma fonte. É que, à época em que os artigos foram escritos, só havia uma única obra no mercado sobre o tema em questão: Tarefa de Casa – uma violência consentida?, de Martha Guanaes Nogueira, São Paulo: Edições Loyola, 2002.

Nossas reflexões sobre dever de casa iniciam-se com a observação de que os colégios têm sido “mensurados” pelas famílias em uma escala de “mais” ou “menos” “fortes” ou “fracos”. E todos desejam ver seus filhos em colégios “fortes”. O dever de casa é um dos elementos de que os pais se utilizam para emitirem seu juízo. Isso faz sentido, porque, fora dos muros, o dever de casa é o que há de mais visível de todo o trabalho escolar.

Os deveres de casa de diferentes escolas costumam ser comparados a partir de dois critérios. Um deles é o tempo gasto pelo filho para fazê-lo. E, conforme os valores da família, esse tempo é considerado excessivo ou insuficiente. Esse critério é extremamente subjetivo e as escolas não têm como satisfazer as famílias nesse particular. Mas a tendência parece ser a de que é raro encontrar uma família que não se importe com o fato de que seus filhos são sempre os primeiros a descer para brincar no playground do prédio. O outro critério é a quantidade de deveres. Quanto maior a quantidade, mais forte é a escola.

Os dois critérios são quantitativos. Não é à toa que Piaget encontrou, em suas investigações sobre a construção da moral, critérios exclusivamente quantitativos em crianças pequenas, para aquilatar a gravidade da mentira e dos desajeitamentos. Para elas, é mais sério quebrar 15 xícaras sem querer do que uma única xícara de propósito. Da mesma forma, dizer que viu um cachorro tão grande quanto uma vaca é mais mentiroso do que afirmar que tirou boas notas sem ter sequer feito prova alguma. Explica-se: cachorro do tamanho de uma vaca é mentira muito maior do que a das notas porque é muito mais impossível a primeira situação do que a segunda. A mensuração aqui foi do grau de verossimilhança. Penso que o mesmo se aplica aos leigos quando tentam avaliar algo que desconhecem: olham para as aparências e se esforçam por encontrar escalas quantitativas, utilizando-se de quaisquer critérios de que possam lançar mão.

Uma família não tem como saber, no dia-a-dia, como seu filho está indo na escola. Não tem acesso à sua participação em sala, não faz idéia se o que está dizendo e fazendo na escola é de boa qualidade, o quanto consegue aprender durante a aula, etc, etc. Assim, lança mão do que pode, literalmente, ver: quanto tempo seu filho dedica aos “estudos” em casa – seja para fazer os deveres, seja para preparar-se para as provas. Por isso, qualquer medida que seja percebida, pelas famílias, como decréscimo de quantidades tenderá a afetar diretamente a imagem de uma escola, abrindo-se o risco de passar a ser considerado “fraca”. A qualquer retirada, é preciso opor significativo acréscimo de outra coisa, a ser anunciado claramente.

Além da percepção que as famílias têm a respeito do dever de casa, quais são suas grandes questões intrínsecas?

Na obra já citada acima, a pesquisadora Martha Guanaes Nogueira vai levantando as questões pertinentes: De quem é o dever de casa? Quais são as funções do dever de casa nos dias de hoje em comparação com os de ontem? Como os pais, os professores e os alunos vêem o dever de casa? Quem gosta dele? Quem desejaria aboli-lo, modificá-lo? – dentre outras.

Da parte dos professores, os objetivos apontados para o dever de casa são:

Essa lista merece atenção e comentários. Em primeiro lugar, perguntaria se o dever de casa é mesmo um bom recurso para, por exemplo, desenvolver a responsabilidade, quando se sabe que, em muitos dos casos, a própria escola pressiona a família para garantir que o filho faça o dito cujo. Outra pergunta pertinente é por que a escola deveria, através do dever de casa, impedir que o aluno decida o que fazer com seu tempo livre. Também vale indagar se “fixar a matéria” ainda é um objetivo adequado para tempos em que o próprio conhecimento não tem tempo para fixar-se a si próprio, dada a velocidade com que se produzem pesquisas que derrubam as certezas mais rapidamente do que conseguimos delas tomar conhecimento. E o que dizer do “hábito” de estudo, palavra que encabeça uma lista que traz no topo ações como escovar dentes, lavar as mãos antes das refeições e banhar-se todos os dias? Estudar e ler são funções bem mais complexas e elevadas do que as citadas e, por conseguinte, não merecem partilhar a mesma lista. Estudar e ler são direitos e paixões, não hábitos. Hábitos são ações mecânicas que se repetem a intervalos regulares e que não requerem do autor praticamente nenhum grau de empenho ou de consciência e cuidado. Estudar e ler não podem ser feitos com esse não comparecimento da própria pessoa. Muito pelo contrário. Hábitos se fazem pela repetição mecanizada. Estudar e ler se desenvolvem pelo desejo e pelo prazer do conhecimento. São processos bastante diferentes e deveriam requerer estratégias igualmente diferentes.

Já o objetivo “complementação da aula” remete a questões de gestão de sala de aula. Como objetivo em si, não é bom nem mau. Explica-se: se o professor é sistematicamente surpreendido pelo sinal que bate ao final da aula e, por isso, delega ao aluno a complementação do tema em casa, pode ser sinal de mau gerenciamento da aula. Se, no entanto, o professor tem uma relação melhor com o tempo da aula, isto é, consegue sistematicamente distribuir os diferentes momentos pelos devidos minutos, não é indicador de mau gerenciamento se ele, eventualmente, transformar em dever de casa alguma parte do que foi previsto para acontecer dentro do próprio período da aula.

Dos objetivos do dever de casa indicados pelos professores, falta comentar aquele que apresenta o dever de casa como um meio de integração família-escola. Esse objetivo merece reflexão atenta por causa de seu inevitável efeito na dinâmica familiar. Ora, cada família tem características peculiares que a difere das demais. Umas se preocupam em ficar atentas ao trabalho da escola e procuram complementá-lo da melhor maneira possível, oferecendo farta vida cultural aos filhos, o que lhes tece sólido referencial no qual as aprendizagens escolares encontrarão eco por toda a vida. Outras, pelo contrário, consideram que escola é uma coisa e família é outra e que, portanto, a escola não deveria solicitar tanta participação familiar em assuntos que, na sua opinião, são de exclusiva responsabilidade da escola. São famílias que priorizam o lazer pelo lazer ou que valorizam, por exemplo, as trocas interpessoais que ocorrem nos momentos sociais da vida familiar. Para estas, os deveres de casa podem estar roubando-lhes precioso tempo de convívio familiar. E, na verdade, há escolas que se alinham com uma e outra posição, ou seja, da parte das escolas tampouco há consenso a respeito do tipo e da quantidade de dever de casa que é legítimo solicitar às famílias, da mesma forma que não se decide de quem é a responsabilidade pela feitura deste, como mencionado acima. E há outros tipos de família. Muitos outros. Tantos, que, na verdade, deveriam indicar que o dever de casa não pode ser o mesmo para todos.

Um dos aspectos mais pitorescos da obra de Martha Guanaes Nogueira é que foi encontrada uma fala bastante recorrente entre os alunos: “não posso estudar porque tenho muito dever de casa”. Para eles, “dever de casa” se traduz em (a) responder perguntas, (b) resolver problemas, (c) fazer continhas, (d) fazer exercícios no caderno. E “estudar” significa: (a) ler, (b) pesquisar, aprofundar um assunto. É de se espantar o ponto a que chegou a esquizofrenia escolar!

A escola precisa pensar em eliminar essa dicotomia entre dever de casa e estudar. E, para fazê-lo, precisa mobilizar suas equipes para estudar e pensar o seu fazer.

A pesquisa de Martha Guanaes no universo dos pais revelou que eles são os mais críticos do dever de casa, porque, através dele, são empurrados para as funções de professor, inspetor, explicador, controlador, pesquisador e não são poucos os que se declararam a favor de sua extinção!

A autora arremata seu trabalho com os seguintes comentários:

A escola para os dias atuais e futuros precisa garantir e ampliar espaços para que o aluno seja construtor do saber. “Ao persistir nessa prática retrógrada e reprodutivista do dever de casa, a escola está compactuando para formar exatamente o fracassado do futuro: por investir mais na memorização para passar no vestibular do que na criatividade”. Gilberto Dimenstein manifesta sua indignação por constatar que no Brasil de hoje “são raras as pessoas em pânico com essas fábricas de obsoletos” (Folha de São Paulo, 2-11-1997).

Tal contradição também tem sido evidenciada na prática do dever de casa. Excesso de tarefas de casa pode gerar, e tem gerado, alunos ignorantes. Para a maioria dos alunos, a tarefa de casa é mecânica, rotineira, cansativa, mero cumprimento de uma obrigação escolar, não acrescentando nada em termos de aprendizagem. Assemelha-se mais a um trabalho braçal, pelo acúmulo de tarefas que precisam ser executadas a tempo e a contento.

A escola está sobrecarregando os alunos de atividades. Ter 35 problemas para resolver em casa é privilegiar a quantidade em detrimento da qualidade. Passa a ser repetição mecânica, deseducativa para a formação do cidadão, contribui para desmotivar e frustrar a esperança de grande parcela de cidadãos brasileiros, para os quais ainda é a escola o único meio possível de melhoria de vida.

Identificando-me com esses questionamentos, não acredito no valor pedagógico de exercícios ditos “de sedimentação ou de fixação de conteúdos”. A aprendizagem não se dá através da repetição mecanizante, mas pela revisitação de um mesmo tema por diferentes portas e janelas de entrada, possibilitando, a cada vez, novas conexões.

É importante que as tarefas propostas para o aluno estejam efetivamente a serviço do desenvolvimento da autoria, ou seja, essas tarefas deveriam ser, sobretudo, oportunidades de estimulo à sua própria produção. Que a tarefa de casa remeta-o ao estudo, à pesquisa e que lhe encomende textos e trabalhos instigantes e significativos. Ao longo de todo o ano letivo, o aluno terá tido a oportunidade de fazer brotar uma farta e caudalosa produção de textos próprios. Dessa forma, assumirá cada vez mais a posição de autor e desenvolverá sua própria metodologia de trabalho.

Heloisa Padilha é Educadora e Psicopedagoga