Leme - Laboratório de Estudos sobre Mudanças na Escola

Revista Percursos

O dever de casa e a identidade da escola

Gilda Stajnbok & Carolina Carneiro

Nossa curiosidade a respeito do dever de casa orbitou em torno da questão: será que diferentes escolas, com Projetos Pedagógicos inspirados em variados autores, defendendo distintos conceitos e valores, teriam deveres de casa que expressassem essas diferenças?

Fomos em campo e obtivemos 239 folhas de trabalhos de casa de 1ª série do Ensino Fundamental de diferentes escolas do Rio de Janeiro – uma municipal e seis particulares. Também conversamos com os professores dessas escolas que passavam os deveres de casa que analisamos, procurando sondar qual o papel do dever de casa no seu cotidiano escolar.

Com a análise das referidas folhas, pudemos observar que os tipos de trabalho que estão sendo propostos por essas escolas não favorecem a autoria do aluno. Classificamos esses tipos por ordem de ocorrência.

1. Fixação do tipo muito fácil
Ex.: “Encontre o feminino substituindo a letra o pela letra a: meigo – meig__

2. Fixação do tipo cansativo, vários exercícios exatamente iguais
Ex.: “Escreva as frases no plural” (seguem “n” frases )

3. Fixação de conteúdos através da repetição, com pequenas variações
Ex.: “Arme e efetue:” (várias contas)

4. Interpretações de textos com perguntas diretas e literais
Ex.: Título do texto: “O amor”; questão: “Qual é o tema do texto?”

5. Jogos do tipo “passatempo”:
Ex.: “Cruzadinha”, “7 erros” , etc.

Das conversas com os professores obtivemos as seguintes informações:

É curioso observar que a diversidade pedagógica das escolas, umas mais modernas, outras menos, não se reflete no dever de casa. Constata-se que, independente da identidade declarada de cada uma, na prática, o que se vê são deveres convencionais e de pouca ousadia.

Sem dúvida nenhuma, há um enorme caminho a ser percorrido a fim de alcançarmos o ideal de um planejamento moderno e eficaz de dever de casa. A constatação do que não tem sido bom para a aprendizagem do aluno e sua autoria é, certamente, um grande passo e um bom começo.

Gilda Carregal Sztajnbok é Orientadora Pedagógica
Carolina Carneiro é Professora