A coordenação pedagógica e a questão do dever de casa
Yvone de Lima e Silva
Dentro de uma escola, o coordenador pedagógico é uma peça fundamental, por ter como função prioritária zelar pela qualidade de ensino através da orientação dos professores. Na verdade, ele é “cúmplice” desses professores no sentido de compartilhar com eles todo o processo de ensino-aprendizagem, passando pela elaboração do planejamento até as diversas formas de avaliação.
O dever de casa é uma das preocupações de grande parte dos professores. Quando novos na instituição, perguntam se é do encaminhamento da escola ministrá-lo muito, ou pouco. Quando mais antigos, pontuam, na maior parte das vezes, a falta de compromisso dos alunos com essa tarefa e, conseqüentemente, atribuem a essa irresponsabilidade o baixo rendimento de alguns desses alunos.
Há, também, divergências em relação à questão da valoração desse dever de casa. Alguns atribuem um valor na avaliação do trimestre para a execução dos deveres, outros diminuem de um determinado valor a falta do dever. Há aqueles que acreditam que o aluno já vai “arcar com o prejuízo” de baixas notas por não ter feito o que lhe foi solicitado e, portanto, não o mensuram.
Uma outra situação é a comunicação ao responsável. Como e quando deve ser feita?
Tiba (1996, p.113) denominou o comportamento de alguns professores como “desmandos em aula”, dentre os quais está a questão da utilização deturpada da tarefa de casa, ou seja, transformá-la em castigo, em simples ocupação de tempo ou como trabalho extra para “resolver” questões de indisciplina.
Todas essas situações podem ocorrer no cotidiano de uma escola e, muitas vezes, os professores esperam uma posição final da coordenação. Deve-se deixar claro, porém, que o processo desenvolvido dentro da sala de aula não possui um só protagonista, o professor; mas sim, um outro muito importante, o aluno. É primordial o estabelecimento de um contrato pedagógico, e, nesse ponto, combinar as regras do jogo antes que ele comece, é fundamental; regras coerentes e construídas com o grupo, de forma acessível a todos.
Dentro desse contexto, insere-se o dever de casa e com ele, mais importante que chegar às questões que envolvem mensuração, por exemplo, é o desafio de pensar o sentido desse dever, e, com isso, fazer com que ele cumpra a sua função: proporcionar mais uma oportunidade de aprendizagem.
A coordenação pedagógica, como responsável pela orientação do trabalho docente, necessita capacitar-se a respeito desse tema que gera tantas discussões entre professores, alunos e pais. Essa reflexão tem, justamente, a intenção de compartilhar, através de um outro olhar, as questões do dever de casa, com base em dados concretos.
Através de um ciclo de palestras, de um artigo e do único livro disponível no mercado a respeito desse tema, encaminhei a minha pesquisa para a prática do dia-a-dia.
Foi aplicado um questionário individual numa escola particular de classe média, na cidade do Rio de Janeiro.
Estou convencida de que trabalhar com informações objetivas e compartilhar essas informações com os grupos envolvidos nos afasta do senso comum, e, por ele, evitamos ser ludibriados e podemos traçar estratégias de ação mais eficazes. É importante, no entanto, que os dados quantitativos sejam acompanhados de uma avaliação qualitativa.
Durante a apresentação dos dados aos alunos, percebi um interesse e uma curiosidade a respeito do tema. O grupo mostrou-se muito crítico em relação a questões como: os motivos que levam alguns professores a “tirarem” pontos de quem não faz o dever e quem o faz não ser valorado por isso; que é fácil burlar esse controle, pois basta copiar o dever do outro antes da aula.
Embora compreendesse os questionamentos colocados naquele momento, era mais importante discutir com o grupo a postura deles frente à tarefa proposta e não a atitude de cada professor em relação às questões do dever de casa. Foi feita, então, uma analogia em relação aos atletas e aos músicos: embora as medalhas e os aplausos só existam no dia da competição e do recital, empenhar-se e não faltar aos treinos ou ensaios é muito importante para o sucesso final. Assim, fazer a tarefa de casa representa mais uma oportunidade de aprendizagem que a escola oferece, o que, conseqüentemente contribuirá para um bom desempenho no período.
Um grupo de alunos declarou que quando não se faz ou se copia o dever de casa de outra pessoa, quem perde, de fato, é o próprio aluno, que “perde conhecimento”.
Os resultados foram apresentados ao grupo de professores. A maior parte entende que o descompromisso está estritamente vinculado ao “esquecimento”. Apontaram, ainda, a dificuldade de continuidade da aula quando a maior parte da turma não faz o dever, em especial, quando esse dever assume a função de ser um elo para a próxima aula.
Os professores parecem perceber que, na verdade, não estão avaliando a qualidade desse dever ou a responsabilidade do aluno, pois não podem ter gerência do que acontece fora da sala de aula. Apesar disso, e dependendo da situação, utilizam-se da nota como forma de sanção a quem não faz o dever, visando a obter uma mudança de comportamento.
Ao final da discussão, pudemos constatar um ponto relevante: como a turma é gerenciada por vários professores, é importante que alguns pontos sejam combinados entre os que trabalham na série, ou seja, a diferença de postura de cada professor em relação ao dever de casa, contribui para a dificuldade de conscientização dos alunos sobre a importância do cumprimento dessa tarefa como mais uma forma de sucesso da aprendizagem.
A proposta pedagógica de uma instituição de ensino deve oferecer parâmetros sobre a questão do dever de casa. Influencia em seu objetivo, nos tipos de dever solicitado, na quantidade e, principalmente, no tratamento que ele receberá em sala de aula.
É importante que pesquisas dentro da escola sejam incentivadas e, a partir delas, investigar e proporcionar aos professores momentos de reflexão e discussão a respeito de suas práticas cotidianas.
Suscitar, no professor, o espírito questionador de suas ações; questionar, por exemplo, o que o leva a optar por determinado tipo de dever de casa. Se o professor acredita que a principal função do dever de casa é a “fixação”, por que o tipo mais usual é a pesquisa? Pesquisar tem o mesmo conceito para alunos e professores? Será que os alunos possuem as habilidades necessárias para resolver os deveres de casa sozinhos? Passar deveres demais para os alunos de hoje pode desmotivá-los a fazê-los? Diversificar o tipo de dever de casa é importante tanto para incentivar os alunos como na solicitação de diferentes habilidades? Os alunos não gostam de estudar ou não sabem estudar em casa?
Esses questionamentos abrem espaço para novas frentes de investigação, tais como o conceito (teoria) e as habilidades (ações) necessárias para a execução de deveres de casa como o estudar e o pesquisar.
As atividades escolares devem ser claras para os alunos, porém, anteriormente, é primordial que sejam claras para o professor, e isso cabe à coordenação pedagógica verificar.
Vejo como essencial que a escola proporcione aos seus professores espaço de estudos conceituais de reflexão de suas ações e de discussões a respeito de estratégias conjuntas, baseando-se em dados objetivos. É um desafio maior nos segmentos em que há um número grande de professores envolvidos com uma única turma, porém enriquecedor, na medida em que a diversidade de concepções favorece um caminho rico, necessitando de uma articulação mais complexa e de construção de uma relação mais cooperativa.
Referências Bibliográficas
NOGUEIRA, Martha Guanaes. Tarefa de casa – uma violência consentida? São Paulo: Edições Loyola. 2002.
PADILHA, Heloisa. Ciclo de palestras – Dever de Casa. Rio de Janeiro: Linha Mestra Consultoria Pedagógica / Colégio da Companhia de Maria. 2004.
PADILHA, Heloisa. Dever de Casa – principais questões. Rio de Janeiro: Linha Mestra Consultoria Pedagógica. 2004.
TIBA, Içami. Disciplina: limite na medida certa. São Paulo: Editora Gente, 7 ed. 1996.