Leme - Laboratório de Estudos sobre Mudanças na Escola

Revista Percursos

Explorando e desenvolvendo a pesquisa e a cultura através da pintura

Samanta Capuchinho Ishikawa

Porque desenvolver este trabalho

A pesquisa é essencial para um efetivo e prazeroso aprendizado. Entretanto, é comum ver pessoas que não sabem pesquisar, nem escrever e pouco valorizam a cultura artística e a interpretação através da arte. Diante desta preocupação foi desenvolvido o presente trabalho. Adicionalmente, o processo como um todo aproximou dever de casa e trabalho de sala e descortinou uma nova faceta possível para o dever de casa: ele pode ser gerado pelos próprios alunos e, quando o é, pode ser muito mais caudaloso e, ao mesmo tempo, deslocar-se inteiramente do lugar de “coisa chata que só faço se me cobrarem”.

A escolha do tema

O tema foi escolhido para proporcionar e aprofundar, com crianças entre 8 e 9 anos, o exercício da leitura visual a partir da reprodução de uma imagem artística, chamando a atenção para a existência de elementos próprios da linguagem plástica – a forma, a linha e a cor – permitindo, ao mesmo tempo, que as crianças estabelecessem relações de significado entre esses elementos e o texto visual; ampliar o vocabulário; socializar e confrontar as diferentes interpretações de acordo com as experiências de cada um; reconhecer a importância da observação; participar oralmente dos comentários a respeito dos artistas e das obras; compartilhar leituras realizadas; saber ouvir e respeitar as opiniões dos colegas.

Além disso, valorizar a cultura artística, compreender a importância da pesquisa para fazer descobertas e promover a conscientização do uso contínuo da pesquisa no cotidiano e das diferentes fontes de pesquisa.

Experiência prévia dos alunos com a pesquisa e obras de arte

Desde o início do ano letivo, foram propostas atividades e dinâmicas que valorizassem a pesquisa, a fim de desenvolver e verificar os conhecimentos prévios da turma em relação ao tema.

Trabalhamos com os alunos o significado e a importância de pesquisar e, assim, de modo progressivo, demos início ao nosso projeto.

Desenvolvimento do projeto

Divididos em grupos, cada um pesquisaria sobre apenas um dos pintores. A escolha se daria através de sorteio.

Os artistas foram: Tarsila do Amaral (modernista); Romero Britto (contemporâneo); Volpi (abstracionista - enfocamos esta fase); Monet (impressionista); Picasso (cubista e surrealista), e Miró (surrealista).

Num segundo momento, teriam que ler os próprios materiais e iluminarem as principais informações de acordo com o que foi pedido.

A turma teve quinze dias para realizar essa tarefa, sempre instruídos pelo professor.

Entrega das pesquisas e discussão em grupos

Os grupos se reuniram para conhecer os diversos materiais, cada um viu e leu o do outro. Depois, avaliaram o que era mais interessante para que pudessem utilizar.

Os materiais foram trazidos de modo organizado, seguindo a seqüência sugerida, e surpreenderam pela criatividade com que foram apresentados. Foram trazidos até chinelo e caixa de sabão em pó com motivos de Romero Britto.

Debate sobre o tema resumo e construção de roteiro de trabalho

Para que pudessem confeccionar um resumo a respeito do artista, conversamos e debatemos previamente sobre o que era um resumo.

Escolha de uma obra para reprodução

Cada aluno escolheu uma das obras que estudou para reproduzi-la na aula de artes. Em seguida, cada criança fez sua própria leitura da obra escolhida para toda a turma.

Apresentação dos trabalhos

Os grupos apresentaram seus trabalhos e, juntos, fizeram a leitura de algumas obras. De acordo com as informações da obra que cada grupo apresentava, a professora fazia perguntas que estimulassem a curiosidade, a leitura de imagens, a imaginação entre outras possibilidades, além de evidenciar o emocional, a percepção e o sentimento de cada um diante das obras.

Todos compreenderam que estavam aprendendo com suas próprias pesquisas e com a dos colegas, valorizando e incentivando a troca de conhecimentos e informações.

A releitura e a obra Abaporu de Tarsila do Amaral relida por Romero Britto

Abaporu é uma criação de Tarsila do Amaral, mas Romero Britto, outro brasileiro, fez uma releitura desta obra, enfatizando seu estilo de pintar: a pop art.

Trabalhamos com a palavra releitura, seu significado e o que tem a ver com as duas obras, a original de Tarsila e a de Romero.

Posteriormente, cada um escolheu uma obra já estudada para fazer uma releitura.

Ao final, individualmente, apresentaram suas releituras, explicando a escolha e suas idéias.

Os alunos passaram a trazer, diariamente, outras releituras: Mona Lisa, de Bottero, muito diferente da original de Da Vinci, o livro Os quadrões, de Maurício de Souza e releituras de brasileiros, a partir da obra O Grito, de Edvard Munch, que foi furtada. Neste dia chegaram à escola ansiosos por comentarem o roubo de uma valiosa obra de arte.

Portfólio

Com o material de cada um, foi organizado um portfólio para cada aluno com o trabalho de todos os colegas.

Auto-avaliação

Durante todo o processo foram realizadas auto-avaliações escritas e orais sobre os variados momentos desenvolvidos nesse projeto.

Bibliografia

Os textos bibliográficos foram explorados, bem como o auto-retrato. Cada aluno escreveu sua bibliografia e se auto-retratou.

Término do projeto

O projeto foi concluído, mas o interesse das crianças continuou. Materiais não paravam de chegar, o que mostra que o dever de casa pode ser gerado pelo próprio aluno quando a situação lhe é significativa e motivadora.

Na sala havia uma mesa intitulada mesa de novidades, onde os materiais consultados, os livros que estavam sendo adquiridos e as pesquisas, envolvendo arte e cultura, ficavam à disposição, o que foi mais um incentivo à pesquisa e ao aprender através destas trocas.

Samanta Capuchinho Ishikawa é Professora