Cartografia para além da sala de aula
Martha Sertã Padilha
Ao embarcar no Classos, mesmo que não estivéssemos navegando “por mares nunca dantes navegados”, encontramos toda sorte de oceanos: revoltos, calmos, crespos, lisos... A tripulação, disposta a declarar guerra ao dever de casa, foi levada por ventos que sopravam contra essa tarefa, considerada elevada e sublime por “comandantes” da sala de aula.
Dentre as defesas desse ataque, afirmou-se que o dever de casa impedia que os alunos estudassem. Essa declaração provocou ventos irados, encorajando-me na aventura de indagar sobre o assunto.
O
presente trabalho iniciou-se com perguntas aos meus alunos
de francês, os quais me deram respostas surpreendentes,
que revelaram maturidade e determinação.
Percebi que, para fazer um trabalho mais abrangente, seria
necessário eleger um público mais variado visto
que os adolescentes são influenciados pelo processo
pedagógico do colégio onde estudam e pelos professores
que encontram pelo caminho.
Entrevistei,
então, alunos de origens diversas (escolas públicas
e particulares, idades e classes sociais distintas), com idade
variável entre 10 e 18 anos (2º segmento do Ensino
Fundamental e Ensino Médio). Após essas entrevistas,
pude alargar o traçado do meu mapa de navegação.
As perguntas formuladas foram quatro:
- Qual a sua opinião sobre o dever de casa?
- O dever de casa ajuda a estudar?
- Por que os alunos não fazem o dever de casa?
- Como o dever de casa poderia ser mais criativo?
A maior parte dos alunos considera a tarefa de casa “chata, repetitiva” e muitos afirmam ter preguiça de fazê-lo. Porém, são quase unânimes ao afirmar que o dever de casa ajuda a estudar. As expressões “fixar a matéria” e “treinar para a prova”, constantes em suas respostas, provocam a reflexão sobre o significado pedagógico da “fixação da matéria”. Podemos inferir, com facilidade, que esse conceito está intimamente relacionado à realização de provas e não, obrigatoriamente, à fixação de conhecimentos.
O professor, ao passar uma tarefa de casa, também, está “comprando uma briga”: ele deve cobrar a sua confecção e corrigi-la. Ora, nos tempos em que vivemos, é útil evitar disputas. Sendo assim, nós, professores, deveríamos estabelecer prioridades, sem “gastar os nossos cartuchos” rapidamente. É possível eleger tarefas mais importantes que serão exigidas de acordo com os critérios adotados e com os objetivos estabelecidos.
Para estimular a competência do aluno, pode-se seguir o conselho sugerido por alguns adolescentes entrevistados, diversificando e variando mais as tarefas de forma a proporcionar o poder de decisão e de criação de cada um.
Torna-se importante refletir sobre o conceito de “fixação da matéria” e de “treino para a prova”. Será que não estamos repetindo, na sala de aula, os valores da sociedade de consumo, incentivando os alunos a agirem de acordo com o retorno obtido? De fato, muitos pensam: “se isso for ‘lucrativo’, eu faço; se não for, não faço”. São esses os valores que queremos transmitir?
Enfim, o Classos ainda não aportou e, provavelmente, não vai chegar a um destino específico. Muitas serão as paradas e as retomadas de seus tripulantes. Talvez alguns embarquem em outros navios... Outros, mais novos, seguirão viagem em portos intermediários... Enquanto estivermos trabalhando, indagando, pesquisando, discutindo e investigando, estaremos navegando à procura de mares desconhecidos para que a exploração se torne mais prazerosa.
O quesito dever de casa serviu de pretexto para abordarmos outros temas que nos provocaram o questionamento de nossas atividades pedagógicas. A participação em eventos dessa natureza é importante para não sermos vencidos por calmarias que possam causar paralisações.
Obs. Guanaes, Martha Nogueira. Tarefa de casa - uma violência consentida?. A autora serviu de base para esse trabalho.