As casas das palavras: a casa e a sala de aula no ensino de inglês para crianças
Gabriela Meirelles
O espaço da aula. O espaço da casa. O espaço da criação.
Será que realmente há diferentes tarefas para os diferentes espaços? Como e por que definimos atividades e comportamentos mais próprios para um determinado ambiente do que para outro?
Resolvi passear por essas questões, pegando emprestado o olhar imaginário de alunos que já tive, e para os quais já defini os espaços da escola e da casa, através de tarefas que eu julgava adequadas para esses diferentes espaços. Como professora de inglês para crianças, baseava-me no seguinte princípio - a sala de aula era o espaço em que as palavras da língua estrangeira seriam postas em contexto, enquanto a tarefa de casa era a simples busca de palavras isoladas.
Mas será que meus alunos as organizavam desse jeito tão certinho e previsível? Comecei a achar que não...
Eu moro numa casa que se chama Casa de Morar.
Me disseram que na Casa de Morar eu só podia brincar com palavras sozinhas. Talvez eles achem que elas vão brigar se ficarem juntas, e eu ainda sou pequena demais para dar bronca em palavras que se estapeiam.
Então eu resolvi nem tentar. Deixo elas separadinhas mesmo que é para não acontecer nenhum desastre.
Aí às vezes eu vou para outra casa, que se chama Casa de Aprender. Para lá tenho que carregar todas as palavras da Casa de Morar com todo cuidado para elas não chegarem muito perto umas das outras.
Na Casa de Aprender, eles sabem botar as palavras juntas sem que nada dê errado. Eu fico tentando prestar atenção para saber fazer isso na minha casa também, mas eles dizem que nem adianta tentar - na Casa de Morar as palavras não sabem brincar juntas.
Então eu fico lá, botando as palavras juntas da maneira que me ensinam.
Mas eu tenho cá pra mim que eles não são tão espertos assim porque as palavras não ficam muito felizes em estar juntas, e uma amiga minha me falou uma vez que se as palavras não parecem meio mágicas quando estão pertinho umas das outras é porque alguma coisa está errada.
É aqui que entra o meu segredo: eu tenho uma outra casa, uma casa mágica - e desmontável! - que eu carrego pra todo canto que eu vou. Essa casa se chama Casa de Inventar.
Às vezes, quando ninguém está prestando atenção, eu monto minha Casa de Inventar dentro da Casa de Morar. Outras vezes, quando as palavras estão muito tristes na Casa de Aprender, eu monto minha Casa de Inventar lá mesmo e as levo escondinhas para dentro.
Aí é o maior barato! Você precisa ver como as palavras ficam brincalhonas, lindas e até mágicas!
Tenho certeza que se o pessoal da Casa de Aprender visse as minhas palavras na Casa de Inventar iam dar a maior bronca nelas e em mim. Eu sei que às vezes eu acabo fazendo umas besteirinhas - deixo duas palavras que não se gostam de jeito nenhum juntas, ou não deixo a mais mandona ir na frente, e aí dá uma confusão que eu não sei bem como resolver.
Adoro a minha Casa de Inventar, posso ficar lá dentro um tempão sem nem notar as horas passando.
Um dia eu ainda vou mostrar essa casa para as pessoas da Casa de Morar e da Casa de Aprender. E sabe por quê? Porque eu acho que elas também carregam por aí um monte de Casas de Inventar escondidinhas e que eu adoraria conhecer!